Um saber ancestral ganha novo fôlego
Existe algo quase encantador em perceber como um costume tão antigo quanto a humanidade — acender uma chama para trazer luz e calor — se transformou, nos últimos tempos, em um dos negócios mais promissores dentro do universo artesanal brasileiro. Não se trata apenas de um retorno saudosista a técnicas manuais, mas de um movimento comercial concreto e mensurável, capaz de converter cozinhas domésticas em pequenos ateliês e passatempos de fim de semana em fontes reais de renda. Quem observa de perto o mercado de velas sabe que 2025 e 2026 representam um marco: a vela artesanal deixou de ser um simples item decorativo e passou a ocupar papel central em uma economia guiada por emoção, sensações e propósito.
Neste texto, vamos além da simples constatação de que as vendas cresceram e nos aprofundamos nos dados, nas matérias-primas e nas fragrâncias que estão redesenhando esse cenário — além de apontar o que esperar dos próximos capítulos dessa trajetória que, na prática, ainda está no começo.
Os dados que confirmam a mudança de cenário
Caso alguém pense que o interesse por velas artesanais é apenas impressão de quem acompanha perfis de decoração online, as estatísticas oficiais desmentem essa ideia. Pesquisas de entidades de apoio ao pequeno negócio revelam que a quantidade de Microempreendedores Individuais registrados como fabricantes desse produto quase triplicou em cinco anos no país — um avanço expressivo, que levou o setor de pouco mais de 500 negócios ativos em 2021 para quase 1.700 em 2025. Trata-se de um ritmo de expansão que poucos ramos do artesanato conseguem manter de forma tão consistente.
São Paulo, como era de se esperar, está à frente desse movimento: a capital paulista concentra a maior parte desses empreendimentos, seguida por municípios como Guarulhos, Campinas, Santo André e São José dos Campos. Contudo, o fenômeno não se limita às grandes metrópoles. Regiões como o Vale do Paraíba, o Vale Histórico e o Litoral Norte registraram um salto expressivo no número de negócios formalizados — passando de poucas dezenas para mais de uma centena em curto espaço de tempo, um avanço que ultrapassa dois terços de crescimento e evidencia que o interesse por empreender com velas também floresceu fora das capitais, alcançando o interior e regiões litorâneas.
No panorama mundial, as projeções variam conforme a consultoria consultada, mas todas convergem para a mesma conclusão: um mercado bilionário em constante expansão, impulsionado tanto pela busca por presentes com carga emocional quanto pelo crescimento do nicho de bem-estar. Os Estados Unidos continuam sendo o maior polo de consumo global, mas chama atenção o fato de que o ritmo de crescimento proporcional mais acelerado já aparece em mercados emergentes — entre eles, o Brasil.
Quem compra e quanto está disposto a pagar
Um fator que ajuda a explicar essa expansão é o perfil de quem consome: mulheres na faixa dos 20 aos 45 anos formam o grupo mais engajado nesse público, e a vela perfumada abandonou seu status de item exclusivo de lojas caras de departamento para ocupar prateleiras de brechós, bancas de feira e vitrines digitais de pequenos empreendedores. No comércio eletrônico nacional, os valores costumam variar em uma faixa acessível para peças individuais, enquanto conjuntos personalizados — voltados para presentes ou experiências específicas — facilmente alcançam valores bem mais elevados.
Essa acessibilidade de preços, somada à ideia de que uma vela pode carregar sentido emocional, é o que especialistas de mercado vêm denominando economia afetiva: um conjunto de produtos e serviços que comercializam, além do item físico em si, uma sensação, um instante de pausa, um momento de autocuidado.